sexta-feira, 25 de maio de 2012

Reflexões sobre a África do Sul

Natale Nascimento


Viajar é sempre uma experiência enriquecedora, para mim particularmente como  turismóloga, analiso através das viagens o meio ambiente, social e  cultural no qual estou inserida.   A  seguir, algumas impressões das duas maiores cidades da África do Sul:  Joanesburgo e Cidade do Cabo, conhecidas pelos lados de lá como Joburg e Cape Town (Cidade mãe) que tive o prazer de conhecer entre abril e maio de 2012.
De início, percebe-se uma sociedade tradicional e um tanto machista, e quanto aos resquícios do apartheid, são visíveis em Joburg. A sensação é que a "separação" terminou oficialmente, mas há uma muralha invisível que ainda segrega. Provavelmente um branco não comprará sua casa num bairro de negros e nem um negro se sentiria a vontade em morar nos bairros de brancos, o mesmo vale para os demais espaços sociais. Quantos anos ainda se passarão para que o apartheid se desinstale da cabeça das pessoas??? 
            No bairro de Kensington é marcante a presença da população negra, portanto, se não havia a presença de brancos na área onde me hospedei, até a extensão do centro da cidade, conclui-se que estes encontram-se em seus próprios  bairros, não frequentando o mesmo ambiente da população negra. Exceto  no  turístico bairro negro de Soweto, que faz parte das atrações  turísticas  da cidade, uma vez que Nelson Mandela é considerado um mártir pelos sul-africanos.
Outro aspecto que vale frisar nos "bairros negros", são os comércios formais e informais  de angolanos, moçambicanos, entre outros, que buscam a estabilidade econômica na África do Sul.  Tal êxodo foi confirmado com a viagem de trem de Joburg para Cape Town, onde foi observado muitas pessoas de baixa renda, sobretudo mulheres e crianças provenientes de outras regiões da África.  
Esse fato reflete, ainda, na questão da comunicação, apesar do inglês ser o idioma oficial, é possível ouvir inúmeros dialetos por toda parte, que no comércio muitas vezes resulta em uma confusão linguística! As transações comerciais são interessantíssimas, a moeda corrente é o Rand, no comércio informal o cliente deve chegar colocando seu preço até a negociação chegar a um denominador comum... eu particularmente adoro esse sistema!
O transporte  urbano é uma questão interessante nas duas cidades, pois não há ônibus coletivo que faça vários roteiros. Os taxis devem ser chamados por telefone e quem está disposto  a  alugar um carro, deve ter atenção redobrada à mão inglesa, que atrapalha definitivamente a nossa cabeça. Em Cape Town há uma grande quantidade de vans que fazem o transporte urbano coletivo, gritam pelas  janelas o roteiro e ainda esperam que atravessemos a rua para tomá-los!  Outra coisa interessante é a cobrança: o dinheiro vai  passando de mão em mão até chegar ao motorista. Na base da confiança, muitas vezes um dos  passageiros se encarrega de passar o troco para os  demais, abrir e fechar as portas do carro...  A população de ambas  cidades é prestativa,  hospitaleira e calorosa.   
Na "Cidade mãe" é possível encontrar gente das mais diversas nacionalidades e a cozinha internacional tomou conta, tanto que encontramos poucos restaurantes especialistas em comida africana. Por falar na comida local, o gengibre e a pimenta são muito utilizados, come-se muito frango e frituras. A "pap" é um acompanhamento tradicional feito com farinha de milho branca e água. As bebidas locais: o delicioso licor de amarula e a cerveja Savana, meio adocicada. Interessante que o café da manhã em Cape Town é totalmente americano: ovos,  bacon, leite, cereal. Apesar de guardar a herança da colonização  inglesa, com a tradicional pausa para o chá.  
Cape Town é turística e cosmopolita, por esse motivo, menos tradicional que Joburg. Por receber tantos "forasteiros" é muito comum encontrar backpackers (albergues) e os chamados guesthouses: esse é o meio de hospedagem que geralmente oferece quartos limpos diariamente com ou sem banheiro. O café da manhã e o serviço de lavanderia são a parte, entretanto, a cozinha e seus acessórios podem ser usados coletivamente.
O que mais me surpreendeu, no entanto, foi a religião, com a presença considerável de muçulmanos e evangélicos. Em Cape Town fiquei hospedada em uma guesthouse onde vive uma comunidade angolana e todos são evangélicos. Já havia conversado sobre isso no Brasil com  dois  amigos nigerianos, também evangélicos, mas não imaginava  quão  grande foi a transformação. O candomblé por eles é visto com  repúdio e são poucos os que preservam e conhecem verdadeiramente tais  rituais.  Como estamos acostumados no Brasil, ouvir sobre nossas  heranças  africanas, pude perceber que agora somos os guardiães dessa  cultura,  especialmente a Bahia e o Rio de Janeiro, lá não ouvi falar de orixás nem de dendê!  
De modo geral, foi uma viagem esclarecedora, pois posso desmistificar para muitos que a África é diferente do que se imagina, já vieram me perguntar se nas ruas havia meninos nus passando fome ou se comíamos todos em uma bacia, como se vêem em documentários sobre a Somália e outros países pobres que compõem o continente...
A  África do Sul têm outras características, tanto pela grande quantidade de brancos, ao contrário do que se imagina, quanto no que tange o desenvolvimento econômico, que vem acompanhado da modernização, sobretudo por ter sediado recentemente a copa do mundo.
Esteticamente Cape Town compara-se com o Rio de Janeiro, pelas paisagens verdes e de mar, pelas pessoas e a vida noturna, especialmente na badalada rua conhecida como Long Street. Joanesburgo compara-se a São Paulo, pois senti uma selva de pedras e de negócios... Imagino que tenha lazer e vida cultural, como todo grande centro oferece, mas possui uma atmosfera diferente, mais reservada. Quanto a vida cultural de lá, pelo pouco tempo, conheci apenas o Museu do Apartheid, muito bem  estruturado e  interativo, diga-se de passagem.
Contudo, o mais importante minha gente, é lembrar que a África não é um país e sim um continente, formado por vários países com suas particularidades, e das pessoas que conheci de alguns desses países, pude ver a semelhança na alegria e no jeitinho brasileiro de ser... eu sinceramente, me senti em casa!