Natale Nascimento
Viajar
é sempre uma experiência enriquecedora, para mim particularmente como
turismóloga, analiso através das viagens o meio ambiente, social e
cultural no qual estou inserida. A seguir, algumas impressões das
duas maiores cidades da África do Sul: Joanesburgo e Cidade do Cabo,
conhecidas pelos lados de lá como Joburg e Cape Town (Cidade mãe) que tive o prazer de conhecer entre abril e maio de 2012.
De início, percebe-se uma sociedade tradicional e um tanto machista, e
quanto aos resquícios do apartheid, são visíveis em Joburg. A
sensação é que a "separação" terminou oficialmente, mas há uma
muralha invisível que ainda segrega. Provavelmente um branco não
comprará sua casa num bairro de negros e nem um negro se sentiria a
vontade em morar nos bairros de brancos, o mesmo vale para os demais
espaços sociais. Quantos anos ainda se passarão para que o apartheid se
desinstale da cabeça das pessoas???
No bairro de Kensington é marcante a presença da população negra, portanto, se não havia a presença de brancos na área onde me hospedei, até a extensão do centro da cidade, conclui-se que estes encontram-se em seus próprios bairros, não frequentando o mesmo ambiente da população negra. Exceto no turístico bairro negro de Soweto, que faz parte das atrações turísticas da cidade, uma vez que Nelson Mandela é considerado um mártir pelos sul-africanos.
No bairro de Kensington é marcante a presença da população negra, portanto, se não havia a presença de brancos na área onde me hospedei, até a extensão do centro da cidade, conclui-se que estes encontram-se em seus próprios bairros, não frequentando o mesmo ambiente da população negra. Exceto no turístico bairro negro de Soweto, que faz parte das atrações turísticas da cidade, uma vez que Nelson Mandela é considerado um mártir pelos sul-africanos.
Outro
aspecto que vale frisar nos "bairros negros", são os comércios formais e
informais de angolanos, moçambicanos, entre outros, que buscam a
estabilidade econômica na África do Sul. Tal êxodo foi confirmado com a viagem de trem de Joburg para Cape Town, onde foi observado
muitas pessoas de baixa renda, sobretudo mulheres e crianças
provenientes de outras regiões da África.
Esse
fato reflete, ainda, na questão da comunicação, apesar do inglês ser o
idioma oficial, é possível ouvir inúmeros dialetos por toda parte, que
no comércio muitas vezes resulta em uma confusão linguística! As
transações comerciais são interessantíssimas, a moeda corrente é o Rand,
no comércio informal o cliente deve chegar colocando seu preço até a
negociação chegar a um denominador comum... eu particularmente adoro
esse sistema!
O
transporte urbano é uma questão interessante nas duas cidades, pois
não há ônibus coletivo que faça vários roteiros. Os taxis devem ser
chamados por telefone e quem está disposto a alugar um carro, deve ter
atenção redobrada à mão inglesa, que atrapalha definitivamente a nossa
cabeça. Em Cape Town há uma grande quantidade de vans que fazem o
transporte urbano coletivo, gritam pelas janelas o roteiro e ainda
esperam que atravessemos a rua para tomá-los! Outra coisa interessante é
a cobrança: o dinheiro vai passando de mão em mão até chegar ao
motorista. Na base da confiança, muitas vezes um dos passageiros se
encarrega de passar o troco para os demais, abrir e fechar as portas do
carro... A população de ambas cidades é prestativa, hospitaleira e
calorosa.
Na "Cidade mãe" é possível encontrar gente das mais diversas
nacionalidades e a cozinha internacional tomou conta, tanto que
encontramos poucos restaurantes especialistas em comida africana. Por
falar na comida local, o gengibre e a pimenta são
muito utilizados, come-se muito frango e frituras. A "pap" é um acompanhamento tradicional feito com farinha de milho branca e água. As bebidas locais: o delicioso licor de amarula e a cerveja Savana, meio adocicada. Interessante que o café da manhã em Cape Town é
totalmente americano: ovos, bacon, leite, cereal. Apesar de guardar a
herança da colonização inglesa, com a tradicional pausa para o chá.
Cape
Town é turística e cosmopolita, por esse motivo, menos
tradicional que Joburg. Por
receber tantos "forasteiros" é muito comum encontrar backpackers (albergues) e os chamados
guesthouses: esse é o meio de hospedagem que geralmente oferece
quartos limpos diariamente com ou sem banheiro. O café da manhã e o
serviço de lavanderia são a parte, entretanto, a cozinha e seus
acessórios podem ser usados coletivamente.
O
que mais me surpreendeu, no entanto, foi a religião, com a presença
considerável de muçulmanos e evangélicos. Em Cape Town fiquei
hospedada em uma guesthouse onde vive uma comunidade angolana e todos
são evangélicos. Já havia conversado sobre isso no Brasil com dois
amigos nigerianos, também evangélicos, mas não imaginava quão grande
foi a transformação. O candomblé por eles é visto com repúdio e são
poucos os que preservam e conhecem verdadeiramente tais rituais. Como
estamos acostumados no Brasil, ouvir sobre nossas heranças africanas,
pude perceber que agora somos os guardiães dessa cultura,
especialmente a Bahia e o Rio de Janeiro, lá não ouvi falar de orixás
nem de dendê!
De
modo geral, foi uma viagem esclarecedora, pois posso desmistificar para
muitos que a África é diferente do que se imagina, já vieram me
perguntar se nas ruas havia meninos nus passando fome ou se comíamos
todos em uma bacia, como se vêem em documentários sobre a Somália e
outros países pobres que compõem o continente...
A
África do Sul têm outras características, tanto pela grande quantidade
de brancos, ao contrário do que se imagina, quanto no que tange o
desenvolvimento econômico, que vem acompanhado da modernização,
sobretudo por ter sediado recentemente a copa do mundo.
Esteticamente
Cape Town compara-se com o Rio de Janeiro, pelas paisagens verdes e de
mar, pelas pessoas e a vida noturna, especialmente na badalada rua
conhecida como Long Street. Joanesburgo compara-se a São Paulo, pois
senti uma selva de pedras e de negócios... Imagino que tenha lazer e
vida cultural, como todo grande centro oferece, mas possui uma atmosfera
diferente, mais reservada. Quanto a vida cultural de lá, pelo pouco
tempo, conheci apenas o Museu do Apartheid, muito bem estruturado e
interativo, diga-se de passagem.
Contudo, o mais importante minha gente, é lembrar que a África não é um país e
sim um continente, formado por vários países com suas particularidades, e
das pessoas que conheci de alguns desses países, pude ver a semelhança
na alegria e no jeitinho brasileiro de ser... eu sinceramente, me senti
em casa!